quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Oitenta

Eu rio da cara do perigo,
Brinco com fogo,
Nunca fujo à luta,
Dou a cara pra bater,
Viro sempre a outra face,
Choro pelo próximo,
Torço pelo próximo,
Vibro com o sofredor,
Caio com o sofredor,
Ergo-me, levanto a poeira,
Dou a volta por cima,
Acomodo-me lá embaixo,
Vejo o mundo redondo,
Sinto o fundo do poço,
Erro o caminho,
Perco de vista
A luz no fim do túnel,
Não choro pelo leite derramado,
Não ligo por Inês estar morta.
O que me incomoda é a intensidade. 

Manet, 'Le repos", 1870-1871

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Proporção (or Proportions)



Minhas pernas são curtas de mais    My legs are way too short       Pro tamanho dos meus saltos.          For the length of my leaps.
Minhas asas são curtas de mais        My wings are far too short
Pro tamanho dos meus vôos.           For the heights of my flights.
Minha cabeça é pequena de mais      My head is all so small
Pro volume dos meus pensamentos.  For the bulk of my thoughts.
Meu coração é pequeno de mais       My heart is so, so little
Pro tamanho da minha compaixão.  For the size of my 
                                                 compassion.
Minha vida é curta de mais             My life is certainly too short
Pra minha quantidade de objetivos.  For my number of objectives.
Minha vontade é pequena de mais    My will is simply too small
Pra intensidade da minha intenção. For the intensity of my 
                                                  intentions. 


Leonardo Da Vinci, "O Homem Vitruviano"', ~1487


quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Outro chapéu

Marés no levante,
o vento sopra e
derruba meu chapéu.
Nem percebo, pensamentos
longes no horizonte.
o chapéu longe
no horizonte.
O chapéu não é meu.
Os pensamentos são?
Creio que não.
São de outros pra outros
Mas, internos a mim,
é difícil externá-los.
Custaria mais que um chapéu.
Talvez algumas ondas mais,
outras marés,
outros tempos.
Outro mar. 
Eugenio Latour, 1916, "Moça com Chapéu"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Silêncio



Silêncio. A escuridão inunda o aposento, sendo afugentada em pequenos cantos por raios de luar que teimam em entrar por uma fresta na janela. O silêncio é o vácuo. Não há carros, não há cachorros. Não há madeira dilatando. Os ecos do conflito se haviam dissipado no ar. Não queria ouvir nada, nada. Para quê? Tudo é caos. Tudo é grito, desespero, angústia. Tudo é solidão. Por que então ela ainda tem de ser ruidosa, se nem o próprio silêncio conforta? Ele é tão macio quanto ela, porque é ela. Um é o outro, se englobam, como a serpente que come a própria cauda.  
Mas o que restou depois de dissipado o conflito era o suficiente pra atormentar seus ouvidos fragilizados pela dor do argumento, que teimava em incomodar.  
Sair do quarto seria a solução? Novos ruídos seriam suficientes para fazê-lo esquecer do silêncio da clausura? Ele tenta. E percebe que não. Do lado de fora, o  caos-vácuo transforma-se no caos-ruído das relações obrigatórias, que se fazem assim porque o homem é potencialmente social. A mudança de localização geográfica não muda sua condição interior. Chega-se nos liames da paranóia. O relógio continua sua ronda enquanto ele tenta incessantemente escapar dos minutos que lhe passam pelos olhos, pelos braços, pela barriga. Na pressa para escapar-se ao tempo, esbarra em pessoas. Por que teimam elas em aparecer na sua frente, em gostar dele, logo agora que curtia seu tormento de ser sozinho, tão sozinho... De repente sua presença parece apreciada em ambientes que nunca lhe haviam percebido a existência. Ele não quer mais, não é o momento! Respeitem o momento! 
Por via das dúvidas,  volta ao quarto. A madeira volta a dilatar. Um alarme de carro dispara na rua, duas ambulâncias correm com suas sirenes pela avenida, zunindo e iluminando o quarto pelas frestas, com sua luz vermelha infernal. Dita-se na cama e cobre a cabeça com o travesseiro para tentar recuperar seu estado de caos-silêncio anterior. Agora, o caos-abafamento. E o choro, que prolonga-se na calada das horas que lhe passam vazias.

Edvard Munch, "O Grito", 1893

domingo, 14 de agosto de 2011

00 = 0

Armei uma armadilha,
Trapaceei no jogo,
Escondi as cartas na manga.
Resultado: nada.
Gritei de peito aberto,
Dei a cara pra bater,
Publiquei no jornal.
Resultado: nada.
Amei e perdi,
Gostei e pisei,
Dei corda e dei no pé.
Resultado: nada.
Tirei zero e tirei dez,
Colei e estudei,
Subornei, vendi.
Resultado: nada.
Dormi o dia todo,
Me rendi à insônia,
Comi e jejuei.
Resultado: nada.
Idolatrei e ofendi,
Fui sincera,
Enganei e menti.
Resultado: nada.
Adianta de quê?
Degas, "Waiting", ~1882

domingo, 7 de agosto de 2011

Observant

Look over my shoulders
See my eyes how they shine
Go beyong my lips’ bords
Allow your sight to climb

Get it off the floor
Up my legs you go
Stare at my knees, my core
Note how my thighs glow

Yes, my navel is pierced
You finally realise it
My ribs are so all fierced
They coarse my chest, they kiss it

Those marks ‘round my neck
Are your fingers printed in flesh
Your desire’s like a shipwreck
Sinking down my force of breath

Focus back on my trembling lips
They cry silently for help
You hear no word slips
But you can feel I’ve yelled

So you finally catch my eyes
They shine, in desperation they lie
Rise above your shame
Disregard all that you find lame

They shine and cry
They dance with my hands
Clinging on my hair
Pluckin’ it up and high

Look at me
Notice me, see me
Love me, hate me
We exist and we express

Look to the other side
And open your eyes
So that you can see next door
See now? – We’ all under the same skies

Johannes Vermeer, Leitora à janela, 1657

domingo, 17 de julho de 2011

You know what?

I can read between lines,
I can read between lies.
Beneath all reasons
Upon which I rely
All my understanding of the world,
Of life, of love, of why people die
Or live in a certain way…
How foolish am I!
What kind of fool am I?
Who am I to know
All sorts of things?
No-one. That is why
I know nothing,
Or should know nothing,
Or pretend to know nothing,
I don’t know,
Actually I don’t know much.
I couldn’t, anyway.
It’s not up to me,
Deciding how much I know.
The world is just too big.
Nobody knows much about,
Nobody should,
Nobody wants to,
Nobody deserves to,
Nobody can, or cares.
I was lying, see?
I admit it.
I ignore all things.
I’m just… here. 
Rodin, "O pensador", 1880

terça-feira, 5 de julho de 2011

Out of my mind

Em frente ao espelho,
Abro a boca e
Reparo nos meus dentes.
Eles doem quando eu mordo,
Mas a dor me é alheia.
Alheia é a dor sentida
Quando puxo meus cabelos
E os deixo cair nos ombros,
Não reconheço os cabelos,
A dor do puxão,
Ou os ombros.
Eu me belisco.
Sinto a dor, mas
É a mesma dor dos cabelos,
Dos dentes,
Da sensação dos cabelos nos ombros.
Em frente ao espelho,
Abro a boca e grito.
A voz não é minha,
Assisto de camarote
Ao desespero desta outra pessoa
Que usa meus pulmões,
Minhas cordas vocais,
Meus nervos.
Sou invadida por um romance,
Novela escrita em prosa;
A vida de alguém que é tão nula,
Tão branda, tão passiva,
Tão agitada, tão emocionante
Como qualquer outra.
Essa novela não daria um filme,
Nem uma boa história,
Mas a única possibilidade
É assistir ao filme passando em minha frente.
Eu me escuso do meu próprio movimento.
De quem é essa voz, mesmo?
Ouço sempre, reconheço nunca. 

                                 Caravaggio, "Narciso", 1594-96

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Quatro lados

A maneira que digo
I Love you
Te incomoda,
O jeito que tu dizes
je te deteste
comes my way.
Según que tú dices,
Meu I Love you
Y tu I hate you
Son parts de La méme chose.
Como posso amar que deteste,
How can you hate that I Love?
Vienen a confundirme,
Qual mesmo prefiro eu?
Por quoi c’est toi qui me deteste,
Por qué soy yo que te ama?
If both are the same,
Por que tu no amas
E eu, detesto?
How come love and hate?
Por quoi l’amour et la haine?
Por que não amor e sexo,
Prosa e poesia,
Quiero que me digas
Qué cambia entre los dos,
If they’re the same.
But they are not,
São duas faces da mesma moeda,
Mas uma moeda nunca põe
As duas faces à mostra
Ao mesmo tempo.
It’s either heads or tails,
No te cuento que
La moneda no tiene los lados iguales,
Ils ne sont pas
Les mêmes faces.
Tu mente. 

Rodin, Fugit Amor, 1886

sábado, 11 de junho de 2011

Não.

Um dia cheguei em casa cansada. Eram apenas 14h; eu estava exausta.
Naquele dia eu acordei às 7h da manhã. Queria dormir mais, mas fui proibida pelo meu alarme. Comi algo e me troquei, porque não posso sair nua na rua. Escovei os dentes, porque meu dentista me proibiu de sair de casa sem escová-los.
Ao chegar ao trabalho, demorei 20 minutos pra aceitar o fato de que teria que pagar a diária do estacionamento para parar o carro, porque é proibido estacionar nas ruas do centro.
Ao entrar no escritório, cumprimentei a vad*a da gerente de projetos que mandava e-mails para meu marido convidando-o para sair com ela. Eu a cumprimentei porque é de mau tom não cumprimentar colegas de trabalho.
Queria tomar um chá, mas não podemos levar xícaras para a área do escritório. Elas devem ficar na cozinha.
Enquanto brigava com meu computador porque ele não me permitia instalar o software que eu precisava para a análise de dados, fui repreendida pela minha chefe, que encontrou chicletes mascados na minha lixeira – a empresa proíbe os chicletes no horário de trabalho.
Resolvi parar de brigar com o computador. Desci para fumar um cigarro, porque é proibido fumar em lugares fechados. Queria usar as escadas para descer, mas não é permitido subir e descer as escadas de incêndio quando o prédio não está pegando fogo. Desci de elevador.
Voltei para minha mesa e, antes de continuar a brigar com firewall do Windows, resolvi revisar meu artigo que havia sido lido e comentado pela banca da editora de um periódico onde eu pretendia publicar. Pediram que eu não usasse “então”, “assim”, “ademais”, “aos quais” e “contextuais”; fui aconselhada a fazer frases mais curtas e parágrafos mais longos, pois o periódico, acadêmico que era,não aceitava textos tão literários. Pediram para eu reduzir o número de itens de quatro para três, o periódico só publicava textos com três itens. Pediram para não usar fonte Times New Roman 11, não deixar margens de 2.5 cm, não escrever em espaçamento 1.5. O autor devia vir separado do ano de publicação por uma vírgula, mas se as páginas fossem citadas, a vírgula não deveria ser colocada. Convenções, eles explicaram. Mas meu texto estava ótimo, eles disseram.
Terminado o serviço, fui almoçar. Não era permitido pegar duas frutas de sobremesa, não podíamos usar colheres, porque só havia garfos, o café não podia ser vendido na fila da esquerda, apenas na fila da direita. As cadeiras não podiam ser movidas e as mesas não podiam ser juntadas, elas estavam pregadas no chão.
Voltei para o escritório e disse à minha chefe que iria para casa porque não estava me sentindo bem. Ela disse que eu não podia tirar meio dia de folga: se não estava me sentindo bem, não deveria ter vindo pela manhã. Fui embora mesmo assim.
Chegando ao estacionamento, o manobrista me informou de que teria que pagar toda a diária mesmo saindo de lá ao meio-dia, porque ele não tinha autorização para trocar meu ticket.
Na volta pra casa, sonhando acordada, perdi a entrada da minha rua. Como era proibido virar à direita na rua seguinte e a próxima era contramão, precisei dirigir por 15 minutos até encontrar um retorno (permitido apenas aos carros alinhados na faixa da direita).
Ao entrar no prédio, o zelador me lembrou de que o lixo não deveria ser colocado para fora depois das 14h, e que as bicicletas não poderiam ser mais mantidas ao lado dos carros nas garagens, apenas atrás deles.
Cheguei em casa cansada. Do não. Fechei todas as janelas e ascendi um cigarro, pirateei um álbum de jazz em um site de downloads na internet, coloquei o lixo pra fora as 14:10 e gravei minha própria voz na secretária eletrônica. Ouvi a mensagem dezenas e dezenas de vezes seguidas naquele dia. Ela era curta, uma palavra só. Fiquei ouvindo o som da minha própria voz repetindo: sim, sim, sim, sim... 

Paulo Diogo, Sentido Proibido a Ditadores, 2009

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sujeito Passivo

Suas mãos suadas
Umedecem meu lenço branco.
Você não pede perdão nem licença.
Você deixa pegadas de barro
No meu chão limpo ontem.
Você não avisa que está chegando.
Você invade meu espaço
E senta com a calça surrada no meu sofá novo.
Você não me vê.
Minha voz sai miúda,
Quase um sussurro agonizante.
Você não me ouve.
Você deita e rola,
eu rolo e choro,
meus pertences são seus
mas você não é meu.
Você me dobra e põe na carteira.
O dinheiro dentro dela é meu,
O sobrenome na identidade é meu,
mas você faz dele
um nome pronunciado em vão.
Eu me rasgo,
Você me rasga,
Você me corrói,
Eu choro sozinha.
Você vai embora
E finge que não me viu.
Eu sou uma caixa de papelão
Nunca reciclado.
Você rouba meu sopro de vida,
Mas eu não sou biodegradável.
Meus restos virarão pó
Depois de mil anos.
Prazer em não conhecê-lo,
Eu sou o vácuo. 

Miró, Interior Holandês II, 1928

PS: não escrevo poesia. Não sou elevada o suficiente pra tanto. O formato lembra muito, mas eu classifico este textinho como algo no meio do caminho entre a prosa e a poesia - uma prosia, se eu fosse dada a neologismos. Não escolho um formato em detrimento de outro, apenas escrevo de uma forma que alivie minha cabeça pesada. E várias vezes sai assim, nem um nem outro, algo entremeios. Como a vida é: pouquissimo extrema, longe de ser binária, um pouco de tudo. 

sábado, 28 de maio de 2011

As cortinas se fecham

Os feixes de luz entram pelo vidro cerrado da janela, fazendo sombras disformes na parede do fundo do quarto. A cama está desarrumada. O travesseiro no chão. O relógio não pode ser mais ouvido, e ainda marca as horas da madrugada. A ausência de movimentação e respiração no quarto não impede que o dia teime em nascer novamente, mesmo que ali ele não deva mais ser contado. Livros por todos os lados, caídos sobre as roupas sujas aos pés da cadeira, acumuladas após dias de reclusão não forçada. Restos de sanduíches e copos sujos de Coca-Cola amontoados no criado-mudo; uma caneca quebrada no chão, gotas de café respingadas no carpete claro. Os cd's estão espalhados pela escrivaninha, o favorito ainda rodando no aparelho de som, na repetição, dando um movimento melódico ao ar das primeiras horas da manhã. Seus pais sempre consideraram aquele som como ruídos grotescos de pessoas autodenominadas artistas, e que assim eram proclamados por uma mídia pseudo-alternativa que considerava como música muito mais do que as belas poesias criadas até a década de cinqüenta, década por eles idolatrada, aquela sim a década das artes. Agora, os rosnados combinavam com o silêncio mórbido e pesado deixado pela falta de ar no aposento.Eles teriam entendido. 
Tudo que ali se encontrava e que ali permanecia era como sinal de luta silenciosa, balbúrdia causada unicamente pela dor dos últimos momentos, na fúria arrasadora de tentar mudar as coisas apenas transportando os objetos de lugar, em direções aleatórias, quebrando a ordem convencional. Como se isso pudesse evitar o triste fim tantas vezes pensado e projetado, um jeito de reverter sua decisão de forma involuntária. Como se essa fosse a última esperança, que havia se garantido frustrada ou insuficiente nos últimos momentos para impedir tal acontecimento – desgraça para alguns, alívio para outros. Ela, para sua sorte, não sentirá a maior das sensações de impotência e derrota: a de não ter conseguido cumprir seu objetivo último, ir a cabo com a decisão de acabar com tudo; a decisão de atropelar ou não o destino, refazendo sua história com as próprias mãos. 
No único espaço livre sobre a mesa, um vidro de remédios; não se sabe a procedência, mas olhando mais atentamente, percebe-se o nome de um veneno no rótulo manchado de café. Um daqueles que traz uma morte agonizante; seu nome escondido toscamente por uma etiqueta mal feita constando a denominação "ácido ascetil salicílico", escrita em letras de mão; garranchos feitos a mão. Substância altamente ilícita conseguida após muito esforço, através de conhecidos diagnosticados por seus psiquiatras com paranóicos crônicos, e mesmo assim mantidos em seus respectivos empregos em grandes laboratórios farmacêuticos localizados a apenas alguns quarteirões dali. Ao lado, um caderno com anotações tremidas feitas a caneta preta, a folha um pouco amolecida em alguns pontos por marcas d'água: um bilhete de despedida. O sofrimento traduzido em palavras agressivas contra um certo mundo cão, certas pessoas inumanas, certas situações desconcertantes, ilusões febris. Ao lado do armário de sapatos, com as mãos arranhando a madeira, caída sobre os joelhos e com a cabeça entre os braços, ela encontra-se inerte. Veste a roupa mais bonita de seu armário, e está descalça. Fios de saliva secos, caídos da boca semi - aberta e contorcida, passando pelo pescoço e busto, marcam a bela blusa roxa. Suas pupilas estão dilatadas, a pele branca-amarelada, uma expressão paralisada de dor. 
E tudo mais acabou. 

Campinas, julho de 2001