quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Outro chapéu

Marés no levante,
o vento sopra e
derruba meu chapéu.
Nem percebo, pensamentos
longes no horizonte.
o chapéu longe
no horizonte.
O chapéu não é meu.
Os pensamentos são?
Creio que não.
São de outros pra outros
Mas, internos a mim,
é difícil externá-los.
Custaria mais que um chapéu.
Talvez algumas ondas mais,
outras marés,
outros tempos.
Outro mar. 
Eugenio Latour, 1916, "Moça com Chapéu"

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Silêncio



Silêncio. A escuridão inunda o aposento, sendo afugentada em pequenos cantos por raios de luar que teimam em entrar por uma fresta na janela. O silêncio é o vácuo. Não há carros, não há cachorros. Não há madeira dilatando. Os ecos do conflito se haviam dissipado no ar. Não queria ouvir nada, nada. Para quê? Tudo é caos. Tudo é grito, desespero, angústia. Tudo é solidão. Por que então ela ainda tem de ser ruidosa, se nem o próprio silêncio conforta? Ele é tão macio quanto ela, porque é ela. Um é o outro, se englobam, como a serpente que come a própria cauda.  
Mas o que restou depois de dissipado o conflito era o suficiente pra atormentar seus ouvidos fragilizados pela dor do argumento, que teimava em incomodar.  
Sair do quarto seria a solução? Novos ruídos seriam suficientes para fazê-lo esquecer do silêncio da clausura? Ele tenta. E percebe que não. Do lado de fora, o  caos-vácuo transforma-se no caos-ruído das relações obrigatórias, que se fazem assim porque o homem é potencialmente social. A mudança de localização geográfica não muda sua condição interior. Chega-se nos liames da paranóia. O relógio continua sua ronda enquanto ele tenta incessantemente escapar dos minutos que lhe passam pelos olhos, pelos braços, pela barriga. Na pressa para escapar-se ao tempo, esbarra em pessoas. Por que teimam elas em aparecer na sua frente, em gostar dele, logo agora que curtia seu tormento de ser sozinho, tão sozinho... De repente sua presença parece apreciada em ambientes que nunca lhe haviam percebido a existência. Ele não quer mais, não é o momento! Respeitem o momento! 
Por via das dúvidas,  volta ao quarto. A madeira volta a dilatar. Um alarme de carro dispara na rua, duas ambulâncias correm com suas sirenes pela avenida, zunindo e iluminando o quarto pelas frestas, com sua luz vermelha infernal. Dita-se na cama e cobre a cabeça com o travesseiro para tentar recuperar seu estado de caos-silêncio anterior. Agora, o caos-abafamento. E o choro, que prolonga-se na calada das horas que lhe passam vazias.

Edvard Munch, "O Grito", 1893