Em frente ao espelho,
Abro a boca e
Reparo nos meus dentes.
Eles doem quando eu mordo,
Mas a dor me é alheia.
Alheia é a dor sentida
Quando puxo meus cabelos
E os deixo cair nos ombros,
Não reconheço os cabelos,
A dor do puxão,
Ou os ombros.
Eu me belisco.
Sinto a dor, mas
É a mesma dor dos cabelos,
Dos dentes,
Da sensação dos cabelos nos ombros.
Em frente ao espelho,
Abro a boca e grito.
A voz não é minha,
Assisto de camarote
Ao desespero desta outra pessoa
Que usa meus pulmões,
Minhas cordas vocais,
Meus nervos.
Sou invadida por um romance,
Novela escrita em prosa;
A vida de alguém que é tão nula,
Tão branda, tão passiva,
Tão agitada, tão emocionante
Como qualquer outra.
Essa novela não daria um filme,
Nem uma boa história,
Mas a única possibilidade
É assistir ao filme passando em minha frente.
Eu me escuso do meu próprio movimento.
De quem é essa voz, mesmo?
Ouço sempre, reconheço nunca.
Caravaggio, "Narciso", 1594-96

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