sábado, 11 de junho de 2011

Não.

Um dia cheguei em casa cansada. Eram apenas 14h; eu estava exausta.
Naquele dia eu acordei às 7h da manhã. Queria dormir mais, mas fui proibida pelo meu alarme. Comi algo e me troquei, porque não posso sair nua na rua. Escovei os dentes, porque meu dentista me proibiu de sair de casa sem escová-los.
Ao chegar ao trabalho, demorei 20 minutos pra aceitar o fato de que teria que pagar a diária do estacionamento para parar o carro, porque é proibido estacionar nas ruas do centro.
Ao entrar no escritório, cumprimentei a vad*a da gerente de projetos que mandava e-mails para meu marido convidando-o para sair com ela. Eu a cumprimentei porque é de mau tom não cumprimentar colegas de trabalho.
Queria tomar um chá, mas não podemos levar xícaras para a área do escritório. Elas devem ficar na cozinha.
Enquanto brigava com meu computador porque ele não me permitia instalar o software que eu precisava para a análise de dados, fui repreendida pela minha chefe, que encontrou chicletes mascados na minha lixeira – a empresa proíbe os chicletes no horário de trabalho.
Resolvi parar de brigar com o computador. Desci para fumar um cigarro, porque é proibido fumar em lugares fechados. Queria usar as escadas para descer, mas não é permitido subir e descer as escadas de incêndio quando o prédio não está pegando fogo. Desci de elevador.
Voltei para minha mesa e, antes de continuar a brigar com firewall do Windows, resolvi revisar meu artigo que havia sido lido e comentado pela banca da editora de um periódico onde eu pretendia publicar. Pediram que eu não usasse “então”, “assim”, “ademais”, “aos quais” e “contextuais”; fui aconselhada a fazer frases mais curtas e parágrafos mais longos, pois o periódico, acadêmico que era,não aceitava textos tão literários. Pediram para eu reduzir o número de itens de quatro para três, o periódico só publicava textos com três itens. Pediram para não usar fonte Times New Roman 11, não deixar margens de 2.5 cm, não escrever em espaçamento 1.5. O autor devia vir separado do ano de publicação por uma vírgula, mas se as páginas fossem citadas, a vírgula não deveria ser colocada. Convenções, eles explicaram. Mas meu texto estava ótimo, eles disseram.
Terminado o serviço, fui almoçar. Não era permitido pegar duas frutas de sobremesa, não podíamos usar colheres, porque só havia garfos, o café não podia ser vendido na fila da esquerda, apenas na fila da direita. As cadeiras não podiam ser movidas e as mesas não podiam ser juntadas, elas estavam pregadas no chão.
Voltei para o escritório e disse à minha chefe que iria para casa porque não estava me sentindo bem. Ela disse que eu não podia tirar meio dia de folga: se não estava me sentindo bem, não deveria ter vindo pela manhã. Fui embora mesmo assim.
Chegando ao estacionamento, o manobrista me informou de que teria que pagar toda a diária mesmo saindo de lá ao meio-dia, porque ele não tinha autorização para trocar meu ticket.
Na volta pra casa, sonhando acordada, perdi a entrada da minha rua. Como era proibido virar à direita na rua seguinte e a próxima era contramão, precisei dirigir por 15 minutos até encontrar um retorno (permitido apenas aos carros alinhados na faixa da direita).
Ao entrar no prédio, o zelador me lembrou de que o lixo não deveria ser colocado para fora depois das 14h, e que as bicicletas não poderiam ser mais mantidas ao lado dos carros nas garagens, apenas atrás deles.
Cheguei em casa cansada. Do não. Fechei todas as janelas e ascendi um cigarro, pirateei um álbum de jazz em um site de downloads na internet, coloquei o lixo pra fora as 14:10 e gravei minha própria voz na secretária eletrônica. Ouvi a mensagem dezenas e dezenas de vezes seguidas naquele dia. Ela era curta, uma palavra só. Fiquei ouvindo o som da minha própria voz repetindo: sim, sim, sim, sim... 

Paulo Diogo, Sentido Proibido a Ditadores, 2009

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