quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Waking up this morning


Waking up this morning
I let the sun shine.
I felt its light glowing
In the dark side of mine.

Walking up the street
I heard a car screech.
The driver and I greet
And I thanked him for
I needn’t beseech.

Getting on the train,
The kids were smiling
In content.
The amusement park is in town,
Their parents have a place
To vent.

I decided not to go to work
I was happy enough as it was.
Letting my devi-ly voice poke
The leading role in cause;
My willingness to be outright,
My willingness to start over again,
My willingness to become a knight.

When I decided to let my dark side shine
It shone with glory and vow.
My dark side is too pretty to hide,
My light side is not pretty at all.

All the blue mood within my soul
inhabits my real course -
while my strangest dreams
could never be ignored,
for they are truly blue,

but of a blue-colour sky
Whereas my core self-
this one, pale as hell
reflects the dull life as it is
a bland mixture of un-love,
delusion, a will to quell.

I needn’t be dominated by it
By reality, by life as it is
I shall be flooded with despair,
Despair for a life of dreams,
For the movie inside my head,
For the singing birds and bees
For the love that shall not be

True, but it is for me
It is for my melted, warm heart
It is true when it makes
My day shine,
It is true when gets me
Out of bed,
It takes me places
I would’ve never seen.

A truly beautiful life,
That turns me into
Something more
Of a person who eats
And sleeps,
And urges, and flees
And wants too badly
What doesn’t exist.

Let it exist inside yourself
There’s the place where
it differs to you
It’s the place
where it differs to me
Where so many
hopes and fears
Slowly cook and brew. 

Pat Perry, "Good Morning" 

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Carrinho de supermercado


Chovia bastante. Ela repousava seu corpo lânguido sobre o banco frio da estação, sem forças para entrar no trem que se aproximava da plataforma. Não se lembrava da última vez que havia comido. As pessoas ao redor a evitavam: percebera que também não se lembrava da última vez que havia tomado um banho. Pensou em sair na chuva, deixar a água correr por seu rosto e arrepiar os pêlos da sua perna, dos seus braços e da sua barriga, a água limpa tudo. Mas desistiu. Levantar daquele banco estava fora de cogitação. Sentou-se.
Tentou concentrar-se na voz que soava pelo alto-falante, queria saber onde estava. Ela não falava a mesma língua do alto-falante. Ela não era uma usuária do trem. Apenas usuários do trem falam a lingua do alto-falante, que sai frenética e abafada pelas caixinhas de som localizadas tão perto do teto murmurando nomes, locais e geografias compreensíveis apenas para quem ouve aqueles nomes repetidamente, duas vezes por dia-após-dia. Esfregou os olhos na esperança de aclarar sua visão turvada. Viu bolinhas coloridas ao olhar para a luz. Que horas eram?
Focou sua visão numa velhinha que empurrava um carrinho de supermercado. Deveria ter se perguntado o que fazia a velhinha com um carrinho de supermercado tão longe de um supermercado, mas perguntara-se primeiro o que fazia uma velhinha tão velhinha tão longe... tão longe do quê, mesmo? Tão longe da morte. Ela era nova, mocinha, senhorita, e estava tão próxima da morte. O médico lhe contara ontem. Ou fora na semana passada? O médico a havia metido num trem em direção a morte, enquanto preferia estar empurrando um carrinho de supermercado em direção a vida. Queria conversar com a velhinha.
A velhinha tinha um cachorrinho. Magro e sujo,  pululava faceiro ao redor do carrinho, como se sentisse cheiro de carne exalando das sacolas de feira velhas que se amontoavam ali. Ela não sentia cheiro de carne, sentia cheiro de tomates podres. Aborinhas podres. Iogurte vencido.  Desistiu de conversar com a velhinha. Preferia conversar com o cachorro. Perguntar a ele o que fazia para manter o otimismo. E então, pensou que gostaria de conversar sim com a velhinha. Perguntar para ela qual era a linha do trem que levava pra estação longevidade. Ficou com medo da resposta: “ah, minha filha, é a linha 3. Mas a estação longevidade fica longe, longe daqui. Você primeiro precisa passar pelas estações miséria, dor, pé na bunda, desemprego, trabalho forçado, e traição. Quando você vir a estação redenção, prepare-se pra saltar na próxima”.
Ela se satisfez com o diálogo criado em sua cabeça. Não sabia porque teimava em ver o lado cinza de tudo. Ou porque as emoções que invadiam sua alma eram sempre as de desespero e angústia. Coçou os braços, espreguiçou-se, resolveu que era hora de sair dali. Precisava procurar algo para comer. Sua última refeição fora uma bomba de chocolate que se dera de presente antes de tudo. Ela merecia. Merecia aquele mergulho na pecaminosidade. Malditos pecados, tudo é pecado! Cansara de levar tantos nãos. Por isso dormiu na estação.
 Quantos dias? Dormiu na estaçào porque cansou de ser proibida de tudo. Queria liberdade. Por isso dormiu na estação. Dormiu na estação porque cansou da clausura da dieta, do amor, da novela, do serviço, do estudo. Cansou do banho dário. Por isso dormiu na estação. Dormiu na estação porque não queria tomar banho todos os dias, queria preferir a chuva ao sol sem chamarem a atenção para seu “estado depressivo”, porque ela queria coçar o umbigo com a unha sem ouvir da sua mãe que aquilo era feio. Por isso dormiu na estação.
Por isso dormiu em qualquer estação. Por isso não sabia onde estava. E por isso também que não entendia a lingua dos alto-falantes, porque queria estar em uma terra de ninguém. E ali, por um espaço de 45 segundos completos, ela  foi feliz.