quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sujeito Passivo

Suas mãos suadas
Umedecem meu lenço branco.
Você não pede perdão nem licença.
Você deixa pegadas de barro
No meu chão limpo ontem.
Você não avisa que está chegando.
Você invade meu espaço
E senta com a calça surrada no meu sofá novo.
Você não me vê.
Minha voz sai miúda,
Quase um sussurro agonizante.
Você não me ouve.
Você deita e rola,
eu rolo e choro,
meus pertences são seus
mas você não é meu.
Você me dobra e põe na carteira.
O dinheiro dentro dela é meu,
O sobrenome na identidade é meu,
mas você faz dele
um nome pronunciado em vão.
Eu me rasgo,
Você me rasga,
Você me corrói,
Eu choro sozinha.
Você vai embora
E finge que não me viu.
Eu sou uma caixa de papelão
Nunca reciclado.
Você rouba meu sopro de vida,
Mas eu não sou biodegradável.
Meus restos virarão pó
Depois de mil anos.
Prazer em não conhecê-lo,
Eu sou o vácuo. 

Miró, Interior Holandês II, 1928

PS: não escrevo poesia. Não sou elevada o suficiente pra tanto. O formato lembra muito, mas eu classifico este textinho como algo no meio do caminho entre a prosa e a poesia - uma prosia, se eu fosse dada a neologismos. Não escolho um formato em detrimento de outro, apenas escrevo de uma forma que alivie minha cabeça pesada. E várias vezes sai assim, nem um nem outro, algo entremeios. Como a vida é: pouquissimo extrema, longe de ser binária, um pouco de tudo. 

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