quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Oitenta

Eu rio da cara do perigo,
Brinco com fogo,
Nunca fujo à luta,
Dou a cara pra bater,
Viro sempre a outra face,
Choro pelo próximo,
Torço pelo próximo,
Vibro com o sofredor,
Caio com o sofredor,
Ergo-me, levanto a poeira,
Dou a volta por cima,
Acomodo-me lá embaixo,
Vejo o mundo redondo,
Sinto o fundo do poço,
Erro o caminho,
Perco de vista
A luz no fim do túnel,
Não choro pelo leite derramado,
Não ligo por Inês estar morta.
O que me incomoda é a intensidade. 

Manet, 'Le repos", 1870-1871