segunda-feira, 20 de junho de 2011

Quatro lados

A maneira que digo
I Love you
Te incomoda,
O jeito que tu dizes
je te deteste
comes my way.
Según que tú dices,
Meu I Love you
Y tu I hate you
Son parts de La méme chose.
Como posso amar que deteste,
How can you hate that I Love?
Vienen a confundirme,
Qual mesmo prefiro eu?
Por quoi c’est toi qui me deteste,
Por qué soy yo que te ama?
If both are the same,
Por que tu no amas
E eu, detesto?
How come love and hate?
Por quoi l’amour et la haine?
Por que não amor e sexo,
Prosa e poesia,
Quiero que me digas
Qué cambia entre los dos,
If they’re the same.
But they are not,
São duas faces da mesma moeda,
Mas uma moeda nunca põe
As duas faces à mostra
Ao mesmo tempo.
It’s either heads or tails,
No te cuento que
La moneda no tiene los lados iguales,
Ils ne sont pas
Les mêmes faces.
Tu mente. 

Rodin, Fugit Amor, 1886

sábado, 11 de junho de 2011

Não.

Um dia cheguei em casa cansada. Eram apenas 14h; eu estava exausta.
Naquele dia eu acordei às 7h da manhã. Queria dormir mais, mas fui proibida pelo meu alarme. Comi algo e me troquei, porque não posso sair nua na rua. Escovei os dentes, porque meu dentista me proibiu de sair de casa sem escová-los.
Ao chegar ao trabalho, demorei 20 minutos pra aceitar o fato de que teria que pagar a diária do estacionamento para parar o carro, porque é proibido estacionar nas ruas do centro.
Ao entrar no escritório, cumprimentei a vad*a da gerente de projetos que mandava e-mails para meu marido convidando-o para sair com ela. Eu a cumprimentei porque é de mau tom não cumprimentar colegas de trabalho.
Queria tomar um chá, mas não podemos levar xícaras para a área do escritório. Elas devem ficar na cozinha.
Enquanto brigava com meu computador porque ele não me permitia instalar o software que eu precisava para a análise de dados, fui repreendida pela minha chefe, que encontrou chicletes mascados na minha lixeira – a empresa proíbe os chicletes no horário de trabalho.
Resolvi parar de brigar com o computador. Desci para fumar um cigarro, porque é proibido fumar em lugares fechados. Queria usar as escadas para descer, mas não é permitido subir e descer as escadas de incêndio quando o prédio não está pegando fogo. Desci de elevador.
Voltei para minha mesa e, antes de continuar a brigar com firewall do Windows, resolvi revisar meu artigo que havia sido lido e comentado pela banca da editora de um periódico onde eu pretendia publicar. Pediram que eu não usasse “então”, “assim”, “ademais”, “aos quais” e “contextuais”; fui aconselhada a fazer frases mais curtas e parágrafos mais longos, pois o periódico, acadêmico que era,não aceitava textos tão literários. Pediram para eu reduzir o número de itens de quatro para três, o periódico só publicava textos com três itens. Pediram para não usar fonte Times New Roman 11, não deixar margens de 2.5 cm, não escrever em espaçamento 1.5. O autor devia vir separado do ano de publicação por uma vírgula, mas se as páginas fossem citadas, a vírgula não deveria ser colocada. Convenções, eles explicaram. Mas meu texto estava ótimo, eles disseram.
Terminado o serviço, fui almoçar. Não era permitido pegar duas frutas de sobremesa, não podíamos usar colheres, porque só havia garfos, o café não podia ser vendido na fila da esquerda, apenas na fila da direita. As cadeiras não podiam ser movidas e as mesas não podiam ser juntadas, elas estavam pregadas no chão.
Voltei para o escritório e disse à minha chefe que iria para casa porque não estava me sentindo bem. Ela disse que eu não podia tirar meio dia de folga: se não estava me sentindo bem, não deveria ter vindo pela manhã. Fui embora mesmo assim.
Chegando ao estacionamento, o manobrista me informou de que teria que pagar toda a diária mesmo saindo de lá ao meio-dia, porque ele não tinha autorização para trocar meu ticket.
Na volta pra casa, sonhando acordada, perdi a entrada da minha rua. Como era proibido virar à direita na rua seguinte e a próxima era contramão, precisei dirigir por 15 minutos até encontrar um retorno (permitido apenas aos carros alinhados na faixa da direita).
Ao entrar no prédio, o zelador me lembrou de que o lixo não deveria ser colocado para fora depois das 14h, e que as bicicletas não poderiam ser mais mantidas ao lado dos carros nas garagens, apenas atrás deles.
Cheguei em casa cansada. Do não. Fechei todas as janelas e ascendi um cigarro, pirateei um álbum de jazz em um site de downloads na internet, coloquei o lixo pra fora as 14:10 e gravei minha própria voz na secretária eletrônica. Ouvi a mensagem dezenas e dezenas de vezes seguidas naquele dia. Ela era curta, uma palavra só. Fiquei ouvindo o som da minha própria voz repetindo: sim, sim, sim, sim... 

Paulo Diogo, Sentido Proibido a Ditadores, 2009

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Sujeito Passivo

Suas mãos suadas
Umedecem meu lenço branco.
Você não pede perdão nem licença.
Você deixa pegadas de barro
No meu chão limpo ontem.
Você não avisa que está chegando.
Você invade meu espaço
E senta com a calça surrada no meu sofá novo.
Você não me vê.
Minha voz sai miúda,
Quase um sussurro agonizante.
Você não me ouve.
Você deita e rola,
eu rolo e choro,
meus pertences são seus
mas você não é meu.
Você me dobra e põe na carteira.
O dinheiro dentro dela é meu,
O sobrenome na identidade é meu,
mas você faz dele
um nome pronunciado em vão.
Eu me rasgo,
Você me rasga,
Você me corrói,
Eu choro sozinha.
Você vai embora
E finge que não me viu.
Eu sou uma caixa de papelão
Nunca reciclado.
Você rouba meu sopro de vida,
Mas eu não sou biodegradável.
Meus restos virarão pó
Depois de mil anos.
Prazer em não conhecê-lo,
Eu sou o vácuo. 

Miró, Interior Holandês II, 1928

PS: não escrevo poesia. Não sou elevada o suficiente pra tanto. O formato lembra muito, mas eu classifico este textinho como algo no meio do caminho entre a prosa e a poesia - uma prosia, se eu fosse dada a neologismos. Não escolho um formato em detrimento de outro, apenas escrevo de uma forma que alivie minha cabeça pesada. E várias vezes sai assim, nem um nem outro, algo entremeios. Como a vida é: pouquissimo extrema, longe de ser binária, um pouco de tudo.