sábado, 28 de maio de 2011

As cortinas se fecham

Os feixes de luz entram pelo vidro cerrado da janela, fazendo sombras disformes na parede do fundo do quarto. A cama está desarrumada. O travesseiro no chão. O relógio não pode ser mais ouvido, e ainda marca as horas da madrugada. A ausência de movimentação e respiração no quarto não impede que o dia teime em nascer novamente, mesmo que ali ele não deva mais ser contado. Livros por todos os lados, caídos sobre as roupas sujas aos pés da cadeira, acumuladas após dias de reclusão não forçada. Restos de sanduíches e copos sujos de Coca-Cola amontoados no criado-mudo; uma caneca quebrada no chão, gotas de café respingadas no carpete claro. Os cd's estão espalhados pela escrivaninha, o favorito ainda rodando no aparelho de som, na repetição, dando um movimento melódico ao ar das primeiras horas da manhã. Seus pais sempre consideraram aquele som como ruídos grotescos de pessoas autodenominadas artistas, e que assim eram proclamados por uma mídia pseudo-alternativa que considerava como música muito mais do que as belas poesias criadas até a década de cinqüenta, década por eles idolatrada, aquela sim a década das artes. Agora, os rosnados combinavam com o silêncio mórbido e pesado deixado pela falta de ar no aposento.Eles teriam entendido. 
Tudo que ali se encontrava e que ali permanecia era como sinal de luta silenciosa, balbúrdia causada unicamente pela dor dos últimos momentos, na fúria arrasadora de tentar mudar as coisas apenas transportando os objetos de lugar, em direções aleatórias, quebrando a ordem convencional. Como se isso pudesse evitar o triste fim tantas vezes pensado e projetado, um jeito de reverter sua decisão de forma involuntária. Como se essa fosse a última esperança, que havia se garantido frustrada ou insuficiente nos últimos momentos para impedir tal acontecimento – desgraça para alguns, alívio para outros. Ela, para sua sorte, não sentirá a maior das sensações de impotência e derrota: a de não ter conseguido cumprir seu objetivo último, ir a cabo com a decisão de acabar com tudo; a decisão de atropelar ou não o destino, refazendo sua história com as próprias mãos. 
No único espaço livre sobre a mesa, um vidro de remédios; não se sabe a procedência, mas olhando mais atentamente, percebe-se o nome de um veneno no rótulo manchado de café. Um daqueles que traz uma morte agonizante; seu nome escondido toscamente por uma etiqueta mal feita constando a denominação "ácido ascetil salicílico", escrita em letras de mão; garranchos feitos a mão. Substância altamente ilícita conseguida após muito esforço, através de conhecidos diagnosticados por seus psiquiatras com paranóicos crônicos, e mesmo assim mantidos em seus respectivos empregos em grandes laboratórios farmacêuticos localizados a apenas alguns quarteirões dali. Ao lado, um caderno com anotações tremidas feitas a caneta preta, a folha um pouco amolecida em alguns pontos por marcas d'água: um bilhete de despedida. O sofrimento traduzido em palavras agressivas contra um certo mundo cão, certas pessoas inumanas, certas situações desconcertantes, ilusões febris. Ao lado do armário de sapatos, com as mãos arranhando a madeira, caída sobre os joelhos e com a cabeça entre os braços, ela encontra-se inerte. Veste a roupa mais bonita de seu armário, e está descalça. Fios de saliva secos, caídos da boca semi - aberta e contorcida, passando pelo pescoço e busto, marcam a bela blusa roxa. Suas pupilas estão dilatadas, a pele branca-amarelada, uma expressão paralisada de dor. 
E tudo mais acabou. 

Campinas, julho de 2001


Nenhum comentário:

Postar um comentário