Não me deixe aqui sozinha.
Eu, sozinha,
Mastigo minha alma
e despedaço meu consentimento
e consciência.
Mascero toda partícula de auto-conhecimento
Em troca de uma sombra menor e encolhida no canto.
Fecho as gavetas com medo de me encontrar por ali
Mastigo um doce, a carne
E espero perder os dentes para não precisar mais
sorrir
Nunca mais, para ninguém.
Nunca para o espelho, realmente,
Nunca sorri para o espelho.
Olho para ele de esguelha
Num movimento sado-masoquista
De não conseguir evitar de olhar
E de não conseguir evitar a frustração
com meu reflexo.
Mas o dia passa ignóbil
E o tempo voa,
O natal já vai chegar,
quantas são as semanas até então,
quantas são as semanas até então,
Quantas semanas estarei mais velha até o natal.
Não sei se quero saber.
Quero evitar a dor de cabeça
E o inchaço do calor
Acordo cedo, me reviro
E atiro no espelho
O rancor do meu desapontamento
Por ser assim, e não assado.
Sentimentos de segunda-feira.
Ninguém atura a segunda-feira.
Esta semana passarei o fio-dental,
Prometo.
Pablo Picasso, Espelho, 1932

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