Por que estou aqui? Boa pergunta. Acho que me rendi às verdades do mundo moderno. Ou melhor: talvez as verdades do mundo moderno tenham me rendido.
Não, não sei exatamente o que quero dizer com "verdades do mundo moderno". Bom, acho que eu não sei o que quero dizer com "mundo moderno", pra ser sincero. Esse é um conceito bem difuso. Mas quando me refiro a suas verdades, me refiro ao que as pessoas aceitam hoje como verdade. Talvez eu me refira ao bom e velho "senso comum" - que, mais frequentemente do que gostaria, não coincide com bom senso.
Ah, sim, são muitas as verdades do mundo moderno. Estamos cheios delas! O mundo, moderno ou não, sempre esteve cheio delas. A que me traz aqui, hoje, é uma bem específica: a que diz que todo mundo, no fundo, deveria fazer terapia. Porque o normal não existe e a vida é por demais cheia de espirais pra ser lidada sem a ajuda de um profissional como você. E claro que sempre me resta a dúvida: se todos precisam de terapia, quem é seu terapeuta? E quem é o terapeuta do seu terapeuta?
Não estou querendo fugir ao assunto! Não, claro que não! Não vim aqui dizer que sua profissao é uma falácia! Ao contrário: estou aqui porque comprei esta verdade. E cansei de me questionar sobre tudo e todos. Cansa, sabe? Essa dúvida constante causa angústia. A dúvida que é plantada pelo mundo moderno. Portanto, melhor que ela seja respondida pelo mesmo. Ou por suas ferramentas. No caso, a terapia.
Hum, exatamente? Nao sei ao certo. Questiono o senso de humanidade. De sociedade. De missão, de função. De sentido. Questiono a habilidade do mundo de me fazer feliz.
Isso é o que querem que acreditemos. Que somos responsáveis pela propria felicidade. Não funciona assim. Também não quero dizer que existam outros responsáveis por ela. Quero dizer que, num mundo sem verdades, a felicidade também o deixa de ser. Deixa de ser verdade. A tristeza também não o é, está claro. Não quero me contradizer. Num mundo sem verdades, a única verdade que existe é "verdades não existem" - e, então, passamos a poder questioná-la também, não?
Claro que é um absurdo. Leva ao extremo do relativismo. O ponto não é este. O ponto é: como aceitar viver sem verdades? Como viver sem ter a felicidade como ideal? Ideais são verdades impraticáveis. A felicidade é impraticável. Principalmente porque ela é o objetivo central da vida: continuamos vivendo porque acreditamos ser possível chegar num momento de êxtase eterno, no qual todas as vontades serão saciadas e nenhum amor será em vão.
Acredito que sim. Ha pessoas que sublimam essa ideia. Mas elas a substituem por algo ainda mais etéreo, aéreo: pela religião. Na falta de verdades concretas aqui, elas se agarram a uma verdade mais pra lá, após a morte, que é uma contradição em termos. Não há vida após a morte. Há o vácuo após a morte. Se houvesse vida após a morte, ela não representaria uma ruptura. Seria uma continuidade. A morte é o fim da vida. Não vivemos pela vida após a morte. Vivemos pela vida durante a vida. A religião, qualquer que seja, elabora a concepção de que a verdade nao pode ser encontrada aqui porque ela não esta aqui, está lá: neste lugar secreto que ninguém nunca viu, de onde ninguém nunca voltou pra ensinar o caminho.
Não acho que sejam loucos. Apenas acho que resolveram tentar buscar suas respostas num lugar diferente do meu. Porque aceitar a realidade de cores frias é mais dificil do que fabricar uma verdade em tons pastel.
Ahah, só isso que você quer saber? Qual é a realidade? A realidade é a falta de sentido da vida: não existe senso comum, portanto nao existe bom senso, simplesmente porque nao existe o sentido. A realidade não tem definição; ela é o que você enxerga, Nossa crença numa verdade maior, que vem perdurando por todos os tempos, é o que nos faz agarrar tão fortemente a nossa própria insastifação. Quando entendermos que somente continuamos a existir porque a insatisfação continua, nos acostumaremos a ela. Deixaremos a ansiedade virar a normalidade na nossa alma.
Culpo nossa inteligência. Nossa arma de sobrevivência. Não podemos nos esquecer que somos somente outra espécie a habitar o reino animal. Como os outros animais, possuimos certas características que nos fazem sobreviver a nossos predadores. Os leões sao fortes, os leopardos são rápidos, os coelhos procriam rapidamente: o humano pensa. Esta é nossa forma de sobrevivência. Pensar, escapar. Para que possamos continuar a procurar comida e procriar. E perpetuar a espécie. Temos o mesmo objetivo dos outros animais. É muita prepotência acreditar que somos especiais. Somos mais um elemento da cadeia alimentar, mais um pedaço do ecossistema.
É, voce tem razão. Não somos. Somos parasitas piores. Porque o mundo natural vive num equilíbrio e se respeita. E nós tentamos quebrar o equilíbrio. Outros parasitas consomem o necessário: nós consumimos muito mais do que devíamos, e perturbamos o equilibrio. E depois nos sentimos punidos. É muita pretensão, acreditar que qualquer coisa que acontece no mundo natural é uma punição a nós! Quem somos nós, para sermos especiais ao ponto de enraivecer a natureza? Não. Nós não enraivecemos a natureza. Apenas perturbamos a ordem das coisas. Nós a rompemos ao usar nossa ferramenta "pensar" exageradamente. O que chamamos de punição nada mais é do que o planeta tentando voltar ao seu estado de equilibrio normal. Dá um pouco mais de trabalho, mas já faz parte do ciclo.
Concordo que algumas vezes meu discurso seja vazio. Não consigo elevá-lo, simplesmente porque minha ferramenta darwiniana nao é assim tão desenvolvida. Talvez eu não deva procriar.
Mas por que voltar à insatisfação?
Sim, acredito que ela seja a força motriz da nossa vida.
Porque a forca motriz é, como o nome diz, o que nos faz mover. É ela quem nos tira da inércia. O fim da insatisfação nos joga imediatamente a um estado de letargia que tambem é conhecido como morte.
Admito que a escolha é dificil: viver na insatisfacao ou morrer. São dois caminhos, apenas. Uma forquilha bem desenhada. Não ha sequer trilhas saindo dela, feitas a força por aventureiros sem lei. Não há caminhos alternativos. A existência da vida está intimamente conectada a nosso estado de insatisfação.
Nem por um minuto quis dizer que a morte propriamente dita só ocorre quando atingimos a satisfação plena. A felicidade, como as outras, é uma verdade fabricada, lembra? Acreditar que morremos porque a atingimos é crer em sua existência. Morrer significa simplesmente que o tempo dado a você chegou ao fim. O tempo que lhe é dado é resultado da combinação da força e aptidão do seu corpo com sua ferramenta “pensar”. Você pode dar sorte de morrer em um instante em que parece que a satisfação foi alcançada. Por outro lado, voce pode morrer em um instante tão ruim de sua vida que faça a morte parecer redenção.
Sim, temos momentos felizes. Eles tem uma função bem específica: mostrar para nós o por quê de estarmos insatisfeitos. Mostrar o que poderia ser. Os momentos de felicidade são os geradores da insatisfação, a água nas turbinas hidrelétricas, o vento nos moinhos criando a energia necessária para manter o corpo em movimento. Para efeitos da conversa, poderíamos fazer uma distinção entre alegria e felicidade: felicidade é a verdade etérea, alegria são os períodos fugazes em que vivemos longe de nossa insatisfação. A alegria é aquele instante em que parece que um estado de plenitude é possivel. É o instante em que a dor passa. Talvez esse seja o encontro com o divino: o fim da dor do imcompleto. Seu problema eh sua duração: fugaz, tão fugaz...
Ok, meu tempo expirou. Foi-se minha hora.
Haha, não, não estou satisfeito. Mas não poderia estar. Ou meu corpo estaria jogado inerte no seu divã. Os dois caminhos a seguir são claros: insatisfação e morte. Escolha o seu. Por ora, escolho a insatisfação. O coração pulando ansioso no peito traz consolo a noite. E você, doutor, que caminho escolhe?
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