sexta-feira, 9 de março de 2012

Chama

Os ruídos da cidade se confundem com a chuva, embalando o cochilo no sofá. Um toque de campainha. Dois, três. É uma testemunha de Jeová,  meu silêncio a fará ir embora. Os ruídos da cidade e da chuva se confundem com o quarto toque da campainha. Depois, com as batidas desesperadas, seguidas por um gemido tão baixo, praticamente inaudível por baixo dos ruídos da banalidade cotidiana.
Talvez não seja uma testemunha de Jeová. Venço a inércia e coloco o livro que fingia ler sobre o colo e me sento. Marco a página do livro com meu dedo indicador. Mais batidas, um trovão, dois, uma batida. Os gemidos ficam mais altos e a chuva cede, vira garoa. Na terra da garoa.
Ando descalço em direção a porta. Mantenho silêncio. Olho pelo olho mágico. Não a vejo. Eu a imagino mulher. Ouço novamente seus gemidos, agora mais suaves. Cansados, quase. Colo meu ouvido à porta. Mais uma batida, agora com a mão aberta, ela estapeia minha porta ritmadamente, lentamente. Algo faz com que eu me sinta estapeado. Que audácia, vir até a minha porta e me tirar do meu torpor para me agredir assim! Eu me imagino estapeando-a de volta. Seu rosto ossudo fica vermelho ao contato da palma da minha mão.
As batidas na porta aumentam após meu tapa mental. Devo ter feito uma expressão de indagação ao me sentar ao lado da porta. Do lado de cá da porta, porque ela está do lado de lá.
 As batidas espalmadas soam como código Morse: emergência, SOS, é um naufrágio, é um ataque aéreo, é dor intensa, é sua vizinha sem fermento para o bolo quase pronto.  É a vizinha do 33, aquela que sorri para mim quando entramos juntos no elevador. Eu tenho medo dela.
Ouço três sirenes ao longe, polícia, bombeiros, paramédicos, não sei em qual ordem. Penso na emergência transmitida a mim via código morse. Pouso minha mão suavemente na porta, e é como se eu conseguisse sentir o calor angusttiado dela irradiando pela porta e entrando no meu corpo. As sirenes se aproximam e trazem consigo um cheiro de queimado que rapidamente inunda meu apartamento de forma visível – a fumaça preta turva minha visão e torna o ar pesado de mais para ser engolido.
 Desisti da porta da frente e corri para a porta de trás, maldizendo a vizinha do 33 e seu bolo sem fermento queimando no forno enquanto voava pela escada de incêndio abaixo.
 Os paramédicos me rodeiam com perguntas. Fico tonto com as perguntas, com a máscara de oxigênio no meu rosto, com a fumaça preta, com os barulhos da cidade, com a garoa estúpida, com o código morse e com os gemidos na minha porta. A testemunha de Jeová, a vizinha do 33 transmitindo uma emergência por código morse. A testemunha de Jeová demandando que eu procurasse alguma espécie de redenção antes do apocalipse. O calor dela esquentando minha mão.
No dia seguinte, a primeira página do jornal trazia uma foto do meu condomínio em chamas. Alguém a tirou com uma câmera de celular a partir da janela do prédio da frente. Na legenda, os números: seis apartamentos totalmente destruídos pelo fogo, todos do terceiro andar; mais 10 apartamentos atingidos. Até o fechamento da edição, nenhuma morte. 

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