O céu tá bem azul, hoje.
“Tá”. Posso pensar “tá”, ou preciso pensar em português correto? E quando eu não souber o português correto, penso como? Bom, acho que isso resolve o problema. Eu penso do jeito que falo, falo do jeito que penso. As únicas idéias na minha cabeça são as que eu consigo pensar por palavras. Não tem jeito. A única saída possível são as que eu consigo associar com figuras, mas as figuras me lembram palavras, e daí a coisa vira uma bola de neve e volta ao mesmo lugar. Dá na mesma. Então eu penso “tá”, mesmo, e não tô nem aí. Tá e tô. Pronto.
Mas o céu tá bem azul hoje. Engraçado como só reparo nisso pela janela do trem. É o único momento em que eu reparo no azul do céu. E como é azul, esse céu, deus do céu. Ainda bem que gosto de azul. Como tô de trem, melhor que ele continue assim. Eu amo chuva, mas não quando vou precisar ir andando da estação de trem pro trabalho, arrastando a barra da minha calça comprida de mais pras minhas pernas curtas e roliças, secando as poças no meio do caminho. Eu devia receber da prefeitura pelo favor à sociedade que faço. Pelo menos receber um desconto na conta de energia, já que preciso lavar a calça toda vez que chove – e chove sempre, o céu azul nunca dura mais que três dias seguidos. Incrível.
Eu gosto dele azulzinho, assim, sem nem estrias de nuvens no céu. Estriado, branquinho, também é bonito, mas ele fica menos azul. Muda de azul royal pra azul anil. Não que eu entenda de cores, pra dar tal definição. Não entendo de muita coisa, veja bem. Só entendo do tédio que me dá viver essa vida, assim, sem saber pra onde tô indo e por que eu tô indo. Indo pra onde? Não vi qual é a estação final do trem. E a gente tem que viver, e dá uma preguiiiiça... hoje também, é? Tenho que viver hoje, também? Não posso dar um tempinho, tirar só um cochilo, voltar amanhã? Coloco uma placa na porta, aviso que volto amanhã. Tô fechada pra negócios, porque não sei que negócio faço. Não é uma boa desculpa?
Ninguém deixa eu fechar as portas, nem na noite de natal e ano novo. Até o mundo asiático tem feriado no natal, eles nem acreditam em Jesus Cristo e toda essa palhaçada. Eles tem um feriado pra comemorar o nascimento de um cara que eles não acreditam que nasceu. Por que eu não posso decretar feriado pra comemorar... puts, não tem o que comemorar. Só quero fechar as portas, mesmo, tentar vencer a insônia. Dormir um dia inteiro pra acordar inteligente no dia seguinte. Ou bonita, ou simpática. Tanto faz.
Acho que todo mundo devia ser ou inteligente, ou bonito ou simpático. Só pra mãe poder falar com orgulho pras amigas, sabe? “ah, você precisa conhecer meu filho, ele é tão simpático... Todos os vizinhos adoram ele, os vendedores da loja conhecem ele pelo nome. Salvou todos os gatinhos da vizinhança, todos pendurados nas árvores. Um amor de pessoa.” “Você viu como meu filho é inteligente? Descobriu de onde vinham os bebês, mal tem 5 anos... a vizinha de 8 se insinuou pra ele, ele pegou!”. “Ah, mas meu filho é lindo de mais... a cara dele está em todos os outdoors da cidade, aquele olhar de tédio que vejo desde seus tenros 10 anos de idade, pra todo mundo ver e se deliciar...”. mas não, não nasci nem inteligente, nem bonita, nem simpática. E tenho que continuar vivendo, sabe, essa vida dá uma preguiiiiça. Não posso mesmo tirar um cochilo? De repente tenho uma epifania, entendo de onde vieram os bebês, entendo mais ainda: entendo pra onde vão os bebês, quando desistem daqui. Quando param o mundo e deixam alguém descer.
Eu não posso descer nunca, parece. Acho que a gente só pode descer quando entende o serviço que tá prestando por aqui. Por enquanto, tô em período probatório: 30 anos de período de experiência na terra pra aprender a trabalhar em grupo, compartilhar com os amigos, ajudar ao próximo. Blá. Por que, mesmo? Não sei, ninguém me explicou por que tenho que fazer as coisas, só me mandam fazer e dizem que é assim.
Não sei mesmo o que tô fazendo por aqui. O motivo pelo qual tô sentada nesse banco de trem, indo trabalhar, ganhar dinheiro pra pagar um monte de conta. Eu nem gosto de dinheiro, nunca gostei. Mas ninguem nunca me perguntou se eu gostava de dinheiro. Me pedem o meu, e não querem saber. Posso escolher a cor da minha saia, da bota, a marca do leite, mas não posso escolher o dinheiro. Não uso uma saia que não gosto, não compro uma bota esquisita, não bebo leite duvidoso. Mas o dinheiro, ah, esse tudo bem: não gosto dele, ele é esquisito e duvidoso, mas eu não tenho essa opção. Por que ninguém nunca me perguntou se eu gosto de dinheiro, se eu quero usar dinheiro? Minha vida gira em torno de ganhar algo que não gosto.
Posso trocar ele por algumas coisas que gosto. Mas no fim, não sei se gosto, mesmo. A verdade é essa. A sensação que sinto é a mesma, quer eu goste quer eu não goste de algo. Não muda nada o decorrer da minha vida. Posso tar sentada nesse banco do trem, indo de ônibus, vindo a pé, dirigindo, a sensação é a mesma. Não muda nunca. Viajo, corro, nado, voo, choro, rio, gargalho, amo, esqueço e lembro, abro e fecho, começo e termino, o torpor é o mesmo. Não posso mesmo dar uma paradinha na vida, tenho que continuar vivendo essa vida qualquer que me foi imposta, no questions asked?
Dá preguiça acordar de manhã sem saber porque o céu azul não me emociona mais que o céu cinza de chuva. Também dá preguiça não entender por que fico irritada com a barra ensopada da minha calça, ao mesmo tempo que isso não muda em nada minha disposição pra receber o dia. Dá uma sensação de fraqueza, ser dominada por esse torpor maldito que não deixa a beleza ou a feiura de nada impactar minha alma, meu coração, meu cerébro, o que for, de forma que isso mude minha disposição de continuar acreditando que tudo isso vale a pena.
Olha no que dá, fico viajando aqui e perco a estação. Droga. Dá-lhe sair do trem, passar as escadas, descer do outro lado, pegar o trem de volta. Chatice. Quem se importa? Eu tenho mesmo que continuar vivendo? Olha minha falta de habilidade com a coisa! Não nasci pra isso não, meu senhor, não sou inteligente, nem bonita, nem simpática. Foi mal.
A alternativa não me parece muito boa, não. Não, morrer não é a solução. Não tem nada do lado de lá! Se tiver, quem se importa? Ninguém vê! E se também tiver dinheiro, gente, gravidade, céu azul, nuvens, céu cinza, poças de chuva? Não muda nada! Pra que arriscar? Pelo menos aqui eu já sei com o que tô lidando. Não sei por quê, mas sei o quê. ‘Por quê’ tem acento, ainda, nessa posição? Enfim, o ponto é que não, não sou suicida. Não é legal. Vai que as coisas vão ser explicadas na semana seguinte? Se me matar, vou perder o último capítulo! O último capítulo da única novela que não consegui deduzir o final do script logo na segunda cena: minha novela. Não, gente, fico por aqui.
Mas tenho mesmo que viver hoje, meu senhor? Hoje também? Tô com uma preguiiiça... não posso dormir, assim, um diazinho só? um dia inteiro, 24h, talvez eu acorde mais inteligente, mais bonita ou mais simpática, e então as coisas se expliquem pra mim. Não dá, não? Doses de remédios controlados? Talvez dê. Missão da semana: conseguir uma receita de remédios tarja preta. Eles devem dar algum barato, ou no mínimo me dar 24 conscientizadoras horas de sonho (ops, sono).
Melhor descer na estação certa, agora. Ou vou me atrasar. Not that anyone cares. Mas eu não gosto de me atrasar. Pelo menos o céu continua azul. De quanto em quanto tempo tem trem depois das 6h?
Monet, a ponte de waterloo, o sol e o nevoeiro

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