segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Carrinho de supermercado


Chovia bastante. Ela repousava seu corpo lânguido sobre o banco frio da estação, sem forças para entrar no trem que se aproximava da plataforma. Não se lembrava da última vez que havia comido. As pessoas ao redor a evitavam: percebera que também não se lembrava da última vez que havia tomado um banho. Pensou em sair na chuva, deixar a água correr por seu rosto e arrepiar os pêlos da sua perna, dos seus braços e da sua barriga, a água limpa tudo. Mas desistiu. Levantar daquele banco estava fora de cogitação. Sentou-se.
Tentou concentrar-se na voz que soava pelo alto-falante, queria saber onde estava. Ela não falava a mesma língua do alto-falante. Ela não era uma usuária do trem. Apenas usuários do trem falam a lingua do alto-falante, que sai frenética e abafada pelas caixinhas de som localizadas tão perto do teto murmurando nomes, locais e geografias compreensíveis apenas para quem ouve aqueles nomes repetidamente, duas vezes por dia-após-dia. Esfregou os olhos na esperança de aclarar sua visão turvada. Viu bolinhas coloridas ao olhar para a luz. Que horas eram?
Focou sua visão numa velhinha que empurrava um carrinho de supermercado. Deveria ter se perguntado o que fazia a velhinha com um carrinho de supermercado tão longe de um supermercado, mas perguntara-se primeiro o que fazia uma velhinha tão velhinha tão longe... tão longe do quê, mesmo? Tão longe da morte. Ela era nova, mocinha, senhorita, e estava tão próxima da morte. O médico lhe contara ontem. Ou fora na semana passada? O médico a havia metido num trem em direção a morte, enquanto preferia estar empurrando um carrinho de supermercado em direção a vida. Queria conversar com a velhinha.
A velhinha tinha um cachorrinho. Magro e sujo,  pululava faceiro ao redor do carrinho, como se sentisse cheiro de carne exalando das sacolas de feira velhas que se amontoavam ali. Ela não sentia cheiro de carne, sentia cheiro de tomates podres. Aborinhas podres. Iogurte vencido.  Desistiu de conversar com a velhinha. Preferia conversar com o cachorro. Perguntar a ele o que fazia para manter o otimismo. E então, pensou que gostaria de conversar sim com a velhinha. Perguntar para ela qual era a linha do trem que levava pra estação longevidade. Ficou com medo da resposta: “ah, minha filha, é a linha 3. Mas a estação longevidade fica longe, longe daqui. Você primeiro precisa passar pelas estações miséria, dor, pé na bunda, desemprego, trabalho forçado, e traição. Quando você vir a estação redenção, prepare-se pra saltar na próxima”.
Ela se satisfez com o diálogo criado em sua cabeça. Não sabia porque teimava em ver o lado cinza de tudo. Ou porque as emoções que invadiam sua alma eram sempre as de desespero e angústia. Coçou os braços, espreguiçou-se, resolveu que era hora de sair dali. Precisava procurar algo para comer. Sua última refeição fora uma bomba de chocolate que se dera de presente antes de tudo. Ela merecia. Merecia aquele mergulho na pecaminosidade. Malditos pecados, tudo é pecado! Cansara de levar tantos nãos. Por isso dormiu na estação.
 Quantos dias? Dormiu na estaçào porque cansou de ser proibida de tudo. Queria liberdade. Por isso dormiu na estação. Dormiu na estação porque cansou da clausura da dieta, do amor, da novela, do serviço, do estudo. Cansou do banho dário. Por isso dormiu na estação. Dormiu na estação porque não queria tomar banho todos os dias, queria preferir a chuva ao sol sem chamarem a atenção para seu “estado depressivo”, porque ela queria coçar o umbigo com a unha sem ouvir da sua mãe que aquilo era feio. Por isso dormiu na estação.
Por isso dormiu em qualquer estação. Por isso não sabia onde estava. E por isso também que não entendia a lingua dos alto-falantes, porque queria estar em uma terra de ninguém. E ali, por um espaço de 45 segundos completos, ela  foi feliz. 

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