terça-feira, 10 de julho de 2012

Quando ela


Eu estava sentada no banco da praça, rascunhando as estátuas da fonte com lápis 4B. Era por volta das dez da manhã. As sombras projetadas pelos prédios nas estátuas as deixavam ainda mais apelativas. Eu gosto de sombrear meus desenhos feitos a lápis 4B. Ela veio e sentou-se ao meu lado. Sorriu. Me mostrou o desenho que estava fazendo, a lápis 6B: a fonte, desfocada, e o prédio antigo de fachada de tijolos atrás dela. Comentou comigo que nossos desenhos se complementavam, rindo. Sua risada faz um barulho revigorante e me irrita um pouco quando estou de mau-humor. Faz de seu sarcasmo uma arma infalível contra a minha paciência. Eu a achei um pouco metida, rascunhando naquele bloco enorme com lápis 6B.  Deveria ser um bloco A3. Eu rascunhava no meu caderno de notas, capa preta, espiral mordido pelo zíper da minha mochila. Respondi com um sorriso e uma piadinha a respeito da nudez das estátuas. Ela vasculhou a bolsa, encontrou um par de grampos e fez um coque no alto da cabeça, deixando alguns fios castanhos e lisos escapando na parte da frente. Me disse que estava desenhando os prédios porque já havia desenhado aquela fonte muitissimas vezes. Ela era apaixonada por aquela fonte. Eu disse que estava me apaixonando por ela também. Eu era nova na cidade e só então tinha descoberto aquela praça, tão perto dos dormitórios da faculdade. Ela perguntou o que eu estudava. Armei uma cara de ponto de interrogação e apontei para meu estojo de madeira ao lado da minha bolsa, do outro lado do banco. "Marcenaria?" Ela riu novamente. O som da sua risada bateu no fundo do meu canal auditivo e meu corpo reagiu com um arrepio subindo pelo braço. Senti o sangue fervendo em meu rosto, uma vontade de revidar a piadinha infame que, de tão ingrata, me fez perder o fio da meada. Queria ter dito “sim, pretendo me formar a tempo de construir uma arca para nos salvar do dilúvio do fim do mundo, em 2012”. Mas não disse. Ao invés, armei um sorrisinho de lado que revelava meu desconforto e respondi, entre dentes: “não, artes plásticas. Este é meu estojo de estúdio”. Pensei que poderia trabalhar com madeira em algum momento, e então pensei que não tinha muito talento para escultura e modelagem. Lendo meus pensamentos, ela disse que as aulas que tratavam de madeira no curso de artes eram incriveis; agora, ela era quase capaz de produzir um objeto identificável em madeira. Vasculhou a bolsa novamente, encontrou uma pirâmide de madeira curtida. Algo pequeno, daria um bom chaveiro. Pegou minha mão, a abriu e colocou a pirâmide sobre minha palma. Gargalhando, disse que aquela era sua tentativa mais bem-sucedida durante o curso: tentara esculpir o Taj Mahal. Gargalhei com ela e disse que seu projeto era por demais ambicioso, que ela deveria começar esculpindo algo como as... pirâmides do Egito – olha só, você já conseguiu fazê-lo! Ela riu novamente, longamente, o som da sua risada tocando sinos dentro do meu ouvido. Me disse seu nome, me disse que estava no terceiro ano de artes plásticas. Disse meu nome, disse que era meu terceiro ano também – havia me transferido de outro estado para cá. Não me perguntou por quê. Empolgou-se contando histórias do primeiro ano de faculdade, do segundo, da semana passada. De ontem. Disse que trancara o curso e viajara como artista de rua para a Europa, e por lá ficou, até que seu dinheiro não fosse mais suficiente para comprar uma xícara de chá que a esquentasse durante o inverno rigoroso da Noruega. Pintava quadros na rua, e precisava segurar uma xícara de chá quente durante todo o tempo para que seus dedos não congelassem e conseguisse continuar pintando, desenhando, garantindo o dinheiro para a próxima xícara, quando aquela esfriasse. Contei meia dúzia de histórias do meu tempo da faculdade, talvez menos.  Comentei porque havia mudado de estado, inventei uma história sobre ameaças de morte após um jogo de pôker que teria me deixado ríquissima e paupérrima em menos de 2 horas. Ela fala alto, gesticula intensamente e se comunica com o o corpo, fazendo espirais com o torso para expressar a forma como dança, entra no metrô lotado ou escapa de pervertidos nas festas da faculdade. Sentadas ali, comemos os dois pacotes de biscoitos Bono que eu tinha na bolsa, as três barras de cereal que ela trazia na dela, mais um sorvete de flocos comprado do carrinho ao lado da fonte. A cor alaranjada do céu nos indicava que o sol estava se pondo. Observei que ele se poria atrás de nós. Ela virou-se de costas, de frente para o encosto do banco, cruzou as pernas em posição de meditação e passou a rabiscar vorazmente em seu bloco A3, resmungando algo inaudível. Copiei sua posição e parei para contemplar o pôr-do-sol. Disse a ela que estava perdendo a magestade daquele pôr-do-sol, com os olhos pregados no papel. Ela me disse que eu estava encarregada de criar a memória sobre ele. Ela, criaria um retrato. Abaixando o lápis, encostou a cabeça no meu ombro e me pediu para que narrasse para ela os movimentos do sol que ela perdera enquanto desenhava. E  demandou que eu prestasse atenção em minhas palavras, para que eu pudesse repeti-las exatamente da mesma forma muitas e muitas vezes durante nossa viagem juntas em direção a velhice.

                             
Seshadri Sreenivasan, 2008, "Sunset over city"

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