Gostaria
de poder chamar este relato de “O momento em que perdi meu cérebro”, mas não posso. Não tenho dados
suficientes para tanto, porque não tenho
lembrança alguma deste momento. Tudo que posso afirmar com certidão e
seguridade é que o perdi.
Gostaria
também de tê-lo deixado na mesa de um bar, no banco do ônibus, nas mesas da
cantina da escola. Isto, pelo menos, daria a chance de alguém tê-lo achado e,
na falta de cárater de devolvê-lo, poderia ao menos estar fazendo bom uso dele.
Mas também não, não tenho como afirmar com retidão onde foi que o perdi.
Portanto,
tudo o que posso dizer, pessoa sem cérebro que sou, é que o perdi. Talvez não
em algum momento exato, facilmente marcado por um relógio. Também não em um
lugar específico, em uma localidade facilmente rastreada por um GPS. Temo que
tenha sido uma perda lenta e gradual, de forma que eu não o percebesse vazando
pelas minhas orelhas, ou por qualquer outro orifício que o valha.
Ou,
talvez ainda, eu não o tenha perdido. Talvez tenha sido apenas um acidente no
meu desenvolvimento: quando crescemos e nos desenvolvemos, o cérebro – e,
portanto, nosso intelecto, seja ele brilhante, mediano ou vergonhoso – se
desenvolve conjuntamente, sendo capaz de formular ideias cada vez mais
complexas e abstratas. Talvez, no meu caso em especial, meu corpo tenha
amadurecido – mas meu cérebro, entregue à preguiça, não.
Fato
é que, independente das especulações que possam ser feitas com relação ao
ocorrido, ele ocorreu. Perdi. Meu cérebro foi-se, me deixou, me abandonou.
Interessante
que tenho emaranhado nas minhas bainhas de mielina que meu cérebro cansou-se de
seguir o corpo em seu amadurecimento natural mais ou menos na época da minha
adolescência. Ou um pouco após, sem, prometo, qualquer intenção velada de
inocentar meus hormônios desta acusação. Talvez tenha sido antes, é verdade,
mas o fato é que os primeiros sinais perceptíveis da repentina ausência da
massa cinzenta dentro desta minha cabecinha (agora, desmiolada) datam desta
época. Vinte anos? Dezenove? Talvez vinte e dois? Se eu tivesse cérebro,
provavelmente poderia ser mais precisa nestas aproximações. Me perdoe.
Também
não gostaria de culpar drogas ilíticitas, bebedeiras juvenis, o som alto das
festas infindáveis e as amizades e
companhias. Aliás, se qualquer parte do meu cérebro tentou segurar-se no meu
crânio, certamente foi porque eu precisava dela para acompanhar os devaneios,
elocrubações e digressões de meus amigos que, na falta do meu cérebro, tem os
seus valendo por dois. Não, não, não há como sentenciar um suspeito em
particular além de qualquer dúvida razoável. As evidências contra qualquer um dos atores é
frágil de mais para suportar a carga de um julgamento real.
Mas
voltemos aos sinais. Os sintomas que me iluminaram e demonstraram que meu cérebro
já não jazia em seu espaço cranial.
Foram sutis no início, e hoje se reafirmam de forma avassaladora a cada vez que
tento acionar qualquer mecanismo neural que pudesse haver existido ali.
Primeiramente fora uma data de aniversário esquecida, uma resposta atravessada
que deixou de ser dada, a resposta a uma piadinha infame que apareceu apenas 10
minutos após a mesma ter sido contada. Escalou para a perda de noção de espaço
e de pertinência social, para a invasão do espaço alheio, a vitimização, a fase
da negação de que havia algo errado, simplesmente porque não havia cérebro para
racionalizar o acontecido. Progrediu para uma falta de habilidade notável com
as palavras do português, para a decadência do vocabulário em inglês, para a
falta de tato com sentimentos alheios. Culminou com a morte da minha
perspicácia, sagacidade e perícia. Este foi o fim de um longo e doloroso
processo de perda do meu cérebro – ou do processo de compreensão de que ele,
pobre, havia-se ido.
Comparo
o sentimento de perda do meu cérebro à sensação de pessoas que nunca aprenderam
a lidar com a morte e que perdem alguém muito querido repentinamente. Aprender
a lidar com uma ausência deste porte, quando nunca se soube caminhar sem aquele
suporte, é uma dor incomparável. Claro que, no meu caso, a dor da perda é
suavizada pela ausência de inteligência que me faça compreendê-la como um todo.
Talvez esta seja uma vantagem de perder o cérebro ao invés de, digamos, o
figado. A consciência é uma tortura, e todos sabemos que a ignorância é uma
virtude.
Concordo
temerariamente com esta afirmação. No entanto, sinto-me na necessidade de
complementar dizendo que a ignorância é uma virtude quando nasceu-se, criou-se
e viveu-se nela. Ter consciência e perdê-la, passando repentinamente à
ignorância, é sofrível. Sofrido. Qual é a palavra mesmo? Tem acento? Ou
assento?
Gostaria
muito de ser apresentada, um dia, a alguém que pudesse me ajudar a sanar este
problema tão grave. A medicina anda tão avançada, quanto tempo terei que
esperar até que transplantes de cérebros sejam viáveis? E as células-tronco,
podem ser implantadas na minha caixa craniana para que cresçam e desenvolvam um
outro cérebro no lugar antes ocupado pelo seu original? Como alternativa
paliativa, há alguma forma de tratamento para sintomas tão terríveis para minha
vida profissional, emocional e social? Eu apreciaria muito a coragem de
qualquer um que se aventurasse a procurar a solução para o meu problema, desde
que ele saiba que, ao encontrar a resposta, não adiantará explicá-la para mim,
já não tenho um cérebro pra conseguir compreendê-la. Mas deixou aqui meu aval,
em escrito e registro, para que toda sorte de experimentos e testes sejam
realizados sem a necessidade de meu consentimento imediato. Prometo dá-lo assim
que meu cérebro for recuperado e eu conseguir avaliar, ponderar e entender os
procedimentos que foram aplicados em mim até então.
Se,
em contrapartida, o indivíduo que porta meu cérebro neste momento condoer-se de
minha experiência e resolver devolvê-lo, por favor, sinta-se a vontade em
fazê-lo. Prometo anonimato total, e nunca o terei em má posição para comigo. O
retorno do órgão querido ultrapassará em muito a raiva por você tê-lo tomado em
primeiro momento. Claro, se é que ele foi perdido em sua integridade em apenas
um momento. Se o processo tiver sido lento e ele tiver realmente escorrido
pelas minhas orelhas... bem, talvez eu já esteja conformada a viver sem ele.
Mas
então, gostaria de utilizar este espaço para relatar a história de quando perdi
meu cérebro. Gostaria de poder chamar
este relato de “O momento em que perdi meu cérebro”, mas não posso...
Luciana Anabel Moren, Ignorancia

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